sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Impedância do progresso



A luz diminuta que entra pela janela daquele minúsculo compartimento permite visualizar o corpo repleto de pequenas chagas, cicatrizes e rugas do pobre homem. É fruto da sociedade apoquentada, em que a química como ciência central, chega às almas dos leigos. O resultado disso é este espécime de ser humano que se encolhe em forma de concha na pequena sala repleta de dejetos e afins, matéria fecal e vómito à discrição,

O que já não podemos observar, pois já nas veias se encontra, é a substância branca que agora milagrosamente circula na carne do rapaz, chamá-lo-mos assim, de agora em diante. Não merece ser denominado homem, pertence a outra espécie.

Mas o rapaz que já dezanove anos feito leva tem uma história, aliás todos nós temos, por mais mórbida ou desinteressante que seja. É estudante de medicina, está no seu ano de caloiro. Parece que o seu cérebro amistoso para os estudos se perdeu no meio da escola da vida. Inala cocaína três vezes ao dia. Tem-no feito há quatro meses e já não é estudante de forma alguma. Faltou o suficiente às aulas para não ser nada senão um miserável monte de carne. Os pais, nem vê-los. Não querem mais saber dele, basta. Amigos, só da onça.

A sala onde se encontra é a de uma casa abandonada nos arredores da cidade. Já não come há três dias, e o estômago aperta. Sorte é que o cérebro está mais concentrado no pó branco, ou melhor, no liquido transparente. Já passou à heroína, cocaína é coisa de criança, fugaz criatura!

Acordou, durante uma hora o seu dormente corpo não se queixou, não tremeu nem vacilou. Conseguiu adormecer e esquecer tudo. Mas agora volta com uma força inexorável, a ganância. Ela supera qualquer desejo primitivo, qualquer excitação sexual de qualquer termo. Só vê branco, só vê pó e líquido à sua frente.

Arrasta-se agora pelo chão, gritando “mãe”, pede dinheiro à sua querida progenitora que não o ouve. Cala-te rapaz, não vale a pena gritares, ninguém te ouve, estás no meio do nada. Aliás, apenas ouvidos surdos te escutarão.

Foi ouvido por outro espécime que ao seu lado se encontrava, este também acordado. Tem rastas no cabelo, pele escura e veste trapos semelhantes ao rapaz. “ Cala-te”, grita. Mas o rapaz já baloiça sentado de joelhos, coça-se interminavelmente. Que o observa-se agora da janela quebrada diria que realizava atividades menos impróprias, mas não. Apenas faz aquilo que a natureza o comanda, aquilo que o cérebro necessita, é o resultado da habituação plena.

Só pena merece ser sentida quando o vemos naquela casa.

Sem comentários:

Enviar um comentário