A
luz diminuta que entra pela janela daquele minúsculo compartimento
permite visualizar o corpo repleto de pequenas chagas, cicatrizes e
rugas do pobre homem. É fruto da sociedade apoquentada, em que a
química como ciência central, chega às almas dos leigos. O
resultado disso é este espécime de ser humano que se encolhe em
forma de concha na pequena sala repleta de dejetos e afins, matéria
fecal e vómito à discrição,
O
que já não podemos observar, pois já nas veias se encontra, é a
substância branca que agora milagrosamente circula na carne do
rapaz, chamá-lo-mos assim, de agora em diante. Não merece ser
denominado homem, pertence a outra espécie.
Mas
o rapaz que já dezanove anos feito leva tem uma história, aliás
todos nós temos, por mais mórbida ou desinteressante que seja. É
estudante de medicina, está no seu ano de caloiro. Parece que o seu
cérebro amistoso para os estudos se perdeu no meio da escola da
vida. Inala cocaína três vezes ao dia. Tem-no feito há quatro
meses e já não é estudante de forma alguma. Faltou o suficiente às
aulas para não ser nada senão um miserável monte de carne. Os
pais, nem vê-los. Não querem mais saber dele, basta. Amigos, só da
onça.
A
sala onde se encontra é a de uma casa abandonada nos arredores da
cidade. Já não come há três dias, e o estômago aperta. Sorte é
que o cérebro está mais concentrado no pó branco, ou melhor, no
liquido transparente. Já passou à heroína, cocaína é coisa de
criança, fugaz criatura!
Acordou,
durante uma hora o seu dormente corpo não se queixou, não tremeu
nem vacilou. Conseguiu adormecer e esquecer tudo. Mas agora volta com
uma força inexorável, a ganância. Ela supera qualquer desejo
primitivo, qualquer excitação sexual de qualquer termo. Só vê
branco, só vê pó e líquido à sua frente.
Arrasta-se
agora pelo chão, gritando “mãe”, pede dinheiro à sua querida
progenitora que não o ouve. Cala-te rapaz, não vale a pena
gritares, ninguém te ouve, estás no meio do nada. Aliás, apenas
ouvidos surdos te escutarão.
Foi
ouvido por outro espécime que ao seu lado se encontrava, este também
acordado. Tem rastas no cabelo, pele escura e veste trapos
semelhantes ao rapaz. “ Cala-te”, grita. Mas o rapaz já baloiça
sentado de joelhos, coça-se interminavelmente. Que o observa-se
agora da janela quebrada diria que realizava atividades menos
impróprias, mas não. Apenas faz aquilo que a natureza o comanda,
aquilo que o cérebro necessita, é o resultado da habituação
plena.
Só
pena merece ser sentida quando o vemos naquela casa.