Custa a muitos seres humanos a fugaz ideia da morte. Ninguém, à parte dos
deprimidos, dos descontentes, tem na mente a concisa afirmação de que deste
mundo partirá. Que a saída será inevitável.
é pena que seja assim, mas é a realidade. A ainda mais restritos estranhará a designação de morte a um mero negócio. Sim,
a morte pode ser também um meio de subsistência humana. Tudo isto advém da necessidade de o homem ritualizar a sua ida do
mundo real. Quando de homem falamos,
não nos referimos ao cadáver, ao falecido, mas sim aos entes do mesmo, que não
há sem-abrigo que seja enterrado em dispendiosa madeira.
A cruel questão aqui é a de como chegamos a este ponto.
Como conseguiu a raça humana comercializar o seu próprio carrasco. Não sei se a
mulher do ancinho e capuz negro aprovaria as inúmeras funerárias casas
existentes naquela cidade da província, ou até naquela grande metrópole.
A outra grande questão, e esta já mais clarinha, é a da
legitimidade desta atividade. Pronunciem-se agora filósofos contemporâneos,
Kants e afins, ou calem-se para frente.
Imaginem que o cadáver do grande cristo, ao invés de ser levado para aquele
túmulo, com a grande pedra a tapa-lo e que só o anjinho a consegue retirar,
fosse levado para uma dessas funerárias de esquina de hoje. Imaginem a
problemática que iria gerar. Ora essa, jesus cristo ressuscitou ao terceiro
dia, na casa funerária do Zequinha. O quão ridículo e pouco literário seria
isso, tiraria todo o vigor de congruência da Bíblia, livro mais do que cheio de
congruências, ou não fosse isto um texto com carácter cómico e parodiante.
Reflitam sobre a história que nos jornais surgiria nesse
mesmo dia por toda a babilónia: Homem ressuscita enquanto o Zequinha fúnebre lhe
retira o sangue das veias, para que a decomposição não fosse tão acelerada. Sem
dúvida, um grande material para um comediante arrojado, não para um texto de
carácter sério e com resquícios de literatura.
Abstenha-se a heresia e o mau-gosto, concentremo-nos na
vida, a morte chegará e rezemos, oremos profundamente, para que o corpo se
mantenha intacto e por conseguinte seja vendido à casa que todos enterra, e
ninguém recorda.
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