Nesse cruzamento, estou parado dentro do carro. Bolbos de luz incidem no pavimento e obstruem a visão que tenho de mim, não sem quem sou, o que faço aqui.
Todo o ser humano nasceria com propósito, mas também dizem que são providos de alma, e essa falta a muitos, ou a todos. E no entanto nunca ninguém a viu, nesse cruzamento.
E nesse cruzamento cai a luz fosca da noite, dois candeeiros a iluminam, quatro carros o povoam. Um em cada oposto da estrada, dois deles em andamento , paralelos, perfeitos. Está verde para aqueles lados. Esses, os dois potentes coches em andamento sabem, o que deles eu acho. A inveja, sentimento tão feio, eu sinto.
Sentado no carro, o sinal encarnado dirige-se a mim. Por momentos vi olhos e julguei tratar-se do Diabo. Mas isto é a vida real. Não há face naquela bola vermelha. Só luz e angústia.
Fecho-os, só quero que passe a verde e não muda. O carro pede para ser desligado: nego-lhe esse prazer e continuo. Barulho do motor invade a audição débil. Lágrima caí, é a minha.
Abri-os, e agora vejo. Vejo a cor da vida, a esperança que povoa a bandeira da pátria.
Arranco, não sem antes passar a mão gelada na face, e limpo-a.
Nesse cruzamento, não soube para onde virar.
INCONGRUENTE PARADOXO
terça-feira, 8 de janeiro de 2013
sexta-feira, 10 de agosto de 2012
Impedância do progresso
A
luz diminuta que entra pela janela daquele minúsculo compartimento
permite visualizar o corpo repleto de pequenas chagas, cicatrizes e
rugas do pobre homem. É fruto da sociedade apoquentada, em que a
química como ciência central, chega às almas dos leigos. O
resultado disso é este espécime de ser humano que se encolhe em
forma de concha na pequena sala repleta de dejetos e afins, matéria
fecal e vómito à discrição,
O
que já não podemos observar, pois já nas veias se encontra, é a
substância branca que agora milagrosamente circula na carne do
rapaz, chamá-lo-mos assim, de agora em diante. Não merece ser
denominado homem, pertence a outra espécie.
Mas
o rapaz que já dezanove anos feito leva tem uma história, aliás
todos nós temos, por mais mórbida ou desinteressante que seja. É
estudante de medicina, está no seu ano de caloiro. Parece que o seu
cérebro amistoso para os estudos se perdeu no meio da escola da
vida. Inala cocaína três vezes ao dia. Tem-no feito há quatro
meses e já não é estudante de forma alguma. Faltou o suficiente às
aulas para não ser nada senão um miserável monte de carne. Os
pais, nem vê-los. Não querem mais saber dele, basta. Amigos, só da
onça.
A
sala onde se encontra é a de uma casa abandonada nos arredores da
cidade. Já não come há três dias, e o estômago aperta. Sorte é
que o cérebro está mais concentrado no pó branco, ou melhor, no
liquido transparente. Já passou à heroína, cocaína é coisa de
criança, fugaz criatura!
Acordou,
durante uma hora o seu dormente corpo não se queixou, não tremeu
nem vacilou. Conseguiu adormecer e esquecer tudo. Mas agora volta com
uma força inexorável, a ganância. Ela supera qualquer desejo
primitivo, qualquer excitação sexual de qualquer termo. Só vê
branco, só vê pó e líquido à sua frente.
Arrasta-se
agora pelo chão, gritando “mãe”, pede dinheiro à sua querida
progenitora que não o ouve. Cala-te rapaz, não vale a pena
gritares, ninguém te ouve, estás no meio do nada. Aliás, apenas
ouvidos surdos te escutarão.
Foi
ouvido por outro espécime que ao seu lado se encontrava, este também
acordado. Tem rastas no cabelo, pele escura e veste trapos
semelhantes ao rapaz. “ Cala-te”, grita. Mas o rapaz já baloiça
sentado de joelhos, coça-se interminavelmente. Que o observa-se
agora da janela quebrada diria que realizava atividades menos
impróprias, mas não. Apenas faz aquilo que a natureza o comanda,
aquilo que o cérebro necessita, é o resultado da habituação
plena.
Só
pena merece ser sentida quando o vemos naquela casa.
quarta-feira, 1 de agosto de 2012
O morto do Negócio
Custa a muitos seres humanos a fugaz ideia da morte. Ninguém, à parte dos
deprimidos, dos descontentes, tem na mente a concisa afirmação de que deste
mundo partirá. Que a saída será inevitável.
é pena que seja assim, mas é a realidade. A ainda mais restritos estranhará a designação de morte a um mero negócio. Sim,
a morte pode ser também um meio de subsistência humana. Tudo isto advém da necessidade de o homem ritualizar a sua ida do
mundo real. Quando de homem falamos,
não nos referimos ao cadáver, ao falecido, mas sim aos entes do mesmo, que não
há sem-abrigo que seja enterrado em dispendiosa madeira.
A cruel questão aqui é a de como chegamos a este ponto.
Como conseguiu a raça humana comercializar o seu próprio carrasco. Não sei se a
mulher do ancinho e capuz negro aprovaria as inúmeras funerárias casas
existentes naquela cidade da província, ou até naquela grande metrópole.
A outra grande questão, e esta já mais clarinha, é a da
legitimidade desta atividade. Pronunciem-se agora filósofos contemporâneos,
Kants e afins, ou calem-se para frente.
Imaginem que o cadáver do grande cristo, ao invés de ser levado para aquele
túmulo, com a grande pedra a tapa-lo e que só o anjinho a consegue retirar,
fosse levado para uma dessas funerárias de esquina de hoje. Imaginem a
problemática que iria gerar. Ora essa, jesus cristo ressuscitou ao terceiro
dia, na casa funerária do Zequinha. O quão ridículo e pouco literário seria
isso, tiraria todo o vigor de congruência da Bíblia, livro mais do que cheio de
congruências, ou não fosse isto um texto com carácter cómico e parodiante.
Reflitam sobre a história que nos jornais surgiria nesse
mesmo dia por toda a babilónia: Homem ressuscita enquanto o Zequinha fúnebre lhe
retira o sangue das veias, para que a decomposição não fosse tão acelerada. Sem
dúvida, um grande material para um comediante arrojado, não para um texto de
carácter sério e com resquícios de literatura.
Abstenha-se a heresia e o mau-gosto, concentremo-nos na
vida, a morte chegará e rezemos, oremos profundamente, para que o corpo se
mantenha intacto e por conseguinte seja vendido à casa que todos enterra, e
ninguém recorda.
terça-feira, 26 de junho de 2012
Diálogo Literário
-
Literatura, tu que existes em plena conformidade com o ser civilizado,
que tens tu para me dizer? Por ventura, muita coisa, ironicamente,
bastante. Mas que mais podes tu oferecer ao homem, senão papel e tinta, é
uma pergunta á qual merece uma resposta.
- Que queres mero humano? Não me incomodes que estou enriquecendo a vida de muitos de vós... Olha, vês, respondi à tua pergunta, assim como que não quer a coisa, ou como que a coisa não quer. Tenho de usar recursos estilísticos, a reputação está em risco...
- Ahhhh, então argumentas tu, que existes para colorir o nosso coração!
- Quem disse isso? Não deturpes palavras minhas, mortal... Lês com o coração é? Ou usas o orgão que te faz ser quem és para processares o que te dou? O que te estou dizendo é o seguinte: Fui posto na terra por vós e agora o meu trabalho, o meu foco e objetivo último é fazer com que a vossa vida não seja vivida em vão. Sim, vós ireis morrer mas com vocês irais levar para a terra tudo aquilo que eu vos dei. Só os mais afortunados são escolhidos para absorver o meu produto, a minha matéria prima. Nem todos me seguem e é pena.
- Tens razão, é o cérebro que se enriquece, o coração esse tem outras maneiras de se preencher. Mas diz-me lá... porque demoraste tanto tempo a aparecer?
- Ora isso não sou eu que te tenho de responder, estou cá há uns bons milénios, fui criado por seres magníficos mas o passado não sei.
- Bem, então se és a Literatura, porque não podes tu aceder por exemplo, aos livros de história, à pré-história digo, e encontrar essas informações?
- E porque não o fazes tu? Cabe-te a ti a minha utilização. Eu não me sirvo de nada, sirvo todos mas em mim não toco. Sou um bem gratuito, ou melhor era, até decidirem fazer de mim um negócio, mas tudo bem, já recuperei... Agora ouve-me. Espalha a palavra por todos. Eu não chego ao homem, os homens chegam a mim por via racional e deliberadamente, ainda que de vontade livre.
- Quem és tu Literatura...
- Sou quem vocês não conseguem ser. Conseguirão?
- Que queres mero humano? Não me incomodes que estou enriquecendo a vida de muitos de vós... Olha, vês, respondi à tua pergunta, assim como que não quer a coisa, ou como que a coisa não quer. Tenho de usar recursos estilísticos, a reputação está em risco...
- Ahhhh, então argumentas tu, que existes para colorir o nosso coração!
- Quem disse isso? Não deturpes palavras minhas, mortal... Lês com o coração é? Ou usas o orgão que te faz ser quem és para processares o que te dou? O que te estou dizendo é o seguinte: Fui posto na terra por vós e agora o meu trabalho, o meu foco e objetivo último é fazer com que a vossa vida não seja vivida em vão. Sim, vós ireis morrer mas com vocês irais levar para a terra tudo aquilo que eu vos dei. Só os mais afortunados são escolhidos para absorver o meu produto, a minha matéria prima. Nem todos me seguem e é pena.
- Tens razão, é o cérebro que se enriquece, o coração esse tem outras maneiras de se preencher. Mas diz-me lá... porque demoraste tanto tempo a aparecer?
- Ora isso não sou eu que te tenho de responder, estou cá há uns bons milénios, fui criado por seres magníficos mas o passado não sei.
- Bem, então se és a Literatura, porque não podes tu aceder por exemplo, aos livros de história, à pré-história digo, e encontrar essas informações?
- E porque não o fazes tu? Cabe-te a ti a minha utilização. Eu não me sirvo de nada, sirvo todos mas em mim não toco. Sou um bem gratuito, ou melhor era, até decidirem fazer de mim um negócio, mas tudo bem, já recuperei... Agora ouve-me. Espalha a palavra por todos. Eu não chego ao homem, os homens chegam a mim por via racional e deliberadamente, ainda que de vontade livre.
- Quem és tu Literatura...
- Sou quem vocês não conseguem ser. Conseguirão?
sábado, 23 de junho de 2012
Incongruente Insanidade
Insanidade:
palavra muitas vezes proferida sem crédito nem desdém, do nada. Pouca
gente sabe o que ela significa até a experiência da razão a comprovar.
Sim, por mais paradoxal que soe tal afirmação é nisto que se baseia. Só
racionalizando, intlectualizando a informação que a palavra insano
contém é que podemos compreender ao máximo o que significa realmente
atingir o chamado ponto de rutura. Já Einstein, numa tentativa de
definir este étimo esvoaçou uma frase: "é repetir a mesma coisa
esperando resultados diferentes". Perdoe-me senhor génio, mas discordo
veemente da sua honrada opinião.
Insanidade, loucura ou demência (é à vontade do freguês) é simplesmente: fuga à perceção básica da vida; descontrolo máximo das capacidades neuronais. Esquecemos então a definição nada acertada do senhor que tanto nos influenciou, mas que morreu na praia no que toca a esta pertinente questão. Não o culpemos, era um mero físico não um psiquiatra.
Mas
a questão pertinente nem é tanto a definição do étimo que abordo com
curiosidade, mas sim: porque fugimos nós à percepção base do mundo,
aquela a que já Platão, esse sim, homem de grande importância nas
questões mórbidas da tolice, se referia no seu alegórico conto. Ora, é
em Platão sim que a resposta encontramos. É neste senhor que reside a
não-dúvida.
Refere-se então este Grego, ou Helénico arcaico se preferirmos, que existem dois mundos distintos, o mundo das sombras e o mundo inteligível.
O insano -o louco- foge do altar da superfície, foge da luz e desce à caverna novamente. Tão simples quanto isto, nada mais há a acrescentar.
Olhemos agora este homem, embrulhado numa camisa de forças, não aparenta mais de vinte e cinco anos, pobre alma. Encontra-se na ala psiquiátrica do hospital, -ou na caverna de Platão- agarrado às pregas que lhe roem a pele. Podemos nos questionar: porque teve este homem tal sina? Porque enlouqueceu? A culpa será dele? Fica lançada a retórica no ar, debruce-se a psiquiatria, a não menos importante psicologia e a biologia sobre tão obtusa memória.
Dois vultos entram na sala,o homem recebe agora a injecção, acalmou, voltou à superfície mas está adormecido, já não é mais quem era. é uma sobra de tudo aquilo que conquistou. A família e os amigos são memórias escassas, nada concretas, o mundo é outro, não foi aquele em que nasceu. Para nós, meras "máquinas sanas" (quem lê o blogue deixa de o ser) este mundo permanece inalterado. Para este homem, esse mesmo mundo é um resquício do que era.
Criou o louco da camisa de forças um novo mundo na sua cabeça, criamos nós o mundo na nossa cabeça...
quarta-feira, 20 de junho de 2012
Incongruente consciência
Dou
por mim e já tenho o meu modesto carro encostado à berma da estrada. O
vidro abre-se lentamente e a brisa marítima recheia-me as narinas. Não
surte qualquer efeito benéfico no meu corpo, esse mantêm-se no mesmo
estado de podridão em que me sinto.
A porta abre-se, custa-me a abri-la, a dor física é realmente intensa, tomo consciência disso. Se ao menos tivesse tido cuidado na noite passada, fiz o que não devia, foi por caminhos menos abertos na mente, e magoei-me. Resultado disso: não sei mais quem sou. É pena que a minha identidade, uma de muitas no mundo, se tenha perdido desta maneira.
Ouço risos infinitos de crianças a correr e brincar na praia, é lá onde me encontro agora, já saí do carro. Sei que sou mais um, mais uma criança, porque no fundo somos tudo uns infantis corpos no planeta. Ninguém matura realmente, ninguém conhece na integridade o mundo e aprendi isso da pior maneira.
E é então que uma das três crianças que brincava na fronteira entre o ínfimo areal e a pedra da calçada pára. É um rapazinho e olha intensamente para mim, um olhar latente, invadido de inocência. Só pena sinto, não pena do mocinho, mas de mim. Já fui assim, não sou mais, mas crescer como já disse, não cresci. Ninguém cresce.
A criança já desviou a retina para quem realmente merece e eu já estou sentado na pedra mármore que separa o mar da terra. Nada mais há a fazer senão visualizar o agora por-do-sol. O tom alaranjado da estrela mãe invade-me mas nada me faz. Sou um peso morto, sem alma alguma. Haverá saída para isto? A única retórica digna de responder não é esta. É pena que a minha vida tenha acabado ontem, de tal forma drástica que mil palavras não completarão o fugaz vazio.
Desapareceu por inteiro o astro rei e as crianças, os adultos, os idosos, esvoaçaram, seguiram viagem, partiram para outra.Fico eu aqui, só mas acompanhado comigo mesmo, com a minha consciência. Talvez seja isso! A consciência, é o facto de eu estar aqui. Todos temos uma, e eu uso-a tão eficientemente que nada me abalará.
Eis então que chego à ideia base da vida humana: a consciência permite-nos de muitas formas ignorar a dor psicológica. Usemo-la.
Já estou no carro, ligo a ignição e volto ao local onde estive ontem. Enfrento a consequência do meu ato, uso a consciência e sigo viagem, para o indefinido.
A porta abre-se, custa-me a abri-la, a dor física é realmente intensa, tomo consciência disso. Se ao menos tivesse tido cuidado na noite passada, fiz o que não devia, foi por caminhos menos abertos na mente, e magoei-me. Resultado disso: não sei mais quem sou. É pena que a minha identidade, uma de muitas no mundo, se tenha perdido desta maneira.
Ouço risos infinitos de crianças a correr e brincar na praia, é lá onde me encontro agora, já saí do carro. Sei que sou mais um, mais uma criança, porque no fundo somos tudo uns infantis corpos no planeta. Ninguém matura realmente, ninguém conhece na integridade o mundo e aprendi isso da pior maneira.
E é então que uma das três crianças que brincava na fronteira entre o ínfimo areal e a pedra da calçada pára. É um rapazinho e olha intensamente para mim, um olhar latente, invadido de inocência. Só pena sinto, não pena do mocinho, mas de mim. Já fui assim, não sou mais, mas crescer como já disse, não cresci. Ninguém cresce.
A criança já desviou a retina para quem realmente merece e eu já estou sentado na pedra mármore que separa o mar da terra. Nada mais há a fazer senão visualizar o agora por-do-sol. O tom alaranjado da estrela mãe invade-me mas nada me faz. Sou um peso morto, sem alma alguma. Haverá saída para isto? A única retórica digna de responder não é esta. É pena que a minha vida tenha acabado ontem, de tal forma drástica que mil palavras não completarão o fugaz vazio.
Desapareceu por inteiro o astro rei e as crianças, os adultos, os idosos, esvoaçaram, seguiram viagem, partiram para outra.Fico eu aqui, só mas acompanhado comigo mesmo, com a minha consciência. Talvez seja isso! A consciência, é o facto de eu estar aqui. Todos temos uma, e eu uso-a tão eficientemente que nada me abalará.
Eis então que chego à ideia base da vida humana: a consciência permite-nos de muitas formas ignorar a dor psicológica. Usemo-la.
Já estou no carro, ligo a ignição e volto ao local onde estive ontem. Enfrento a consequência do meu ato, uso a consciência e sigo viagem, para o indefinido.
terça-feira, 19 de junho de 2012
Incongruente negrume
Está
escuro. Sei que caminho para o indefinido, para o incerto. Não me
preocupo, sei também que esse percurso atribulado trará vantagens a
longo prazo. Quais? ideia não faço, mas que proveitosas serão não tenho
duvida. Esta escuridão na qual me encontro é tudo culpa minha, passei a
vida dormindo, fechando os olhos e absorvendo o negro do caminho. A
situação faltosa em que meu corpo relaxado é meu problema, ninguém terá
acesso a ele.
Fecho agora os olhos, é indeferente tê-los abertos, a escuridão já atinge o negrume, nada há para ver. Penso no que de mal fiz, sei que mereci tal sina, tal fado.
Abro novamente a pálpebra dormente. Em que irei pensar? Nada mais há a fazer senão por um pé à frente do outro e avançar no caminho, às cegas, mas com a certeza de que terá um fim, uma recompensa fortuita. Tudo se irá resolver, a sorte destina-se àqueles que a merecem, é essa a verdade em que finjo acreditar.
Os meus pés tocam agora solo alegre, vejo luz ao fundo do túnel. O caminho, atribulado e infame passou. Atingi porto seguro. A claridade fosca que meus olhos negros vêem nada dizem sobre o futuro, nem porventura sei o quão bom é o que vejo. Uma coisa é certa, tudo, absolutamente tudo, é melhor que a negra escuridão da alma.
Dou um passo em frente e evaporo, deixo de existir mas ainda consigo pensar, cogitar algo. Fui traído pela minha convicção de que qualquer claridade era melhor que negrume algum. Estava enganado e apercebo-me disso, estou consciente mas já não existo. Esvoacei. Não acredito na alma, contudo ela já não existe em mim.
Reapareço. Mudado, o meu corpo transformou-se, já não sou mais quem era. E mais uma vez sou invadido pela minha convicção de que afinal a claridade é boa, transvigorou-me profundaente, olhem para mim. Sou um homem confiante, sem medo ágil. Volto ao estado aonde estava, o de não estar. Mas estou, não estando, e isso é melhor que não estar, estando.
Fecho agora os olhos, é indeferente tê-los abertos, a escuridão já atinge o negrume, nada há para ver. Penso no que de mal fiz, sei que mereci tal sina, tal fado.
Abro novamente a pálpebra dormente. Em que irei pensar? Nada mais há a fazer senão por um pé à frente do outro e avançar no caminho, às cegas, mas com a certeza de que terá um fim, uma recompensa fortuita. Tudo se irá resolver, a sorte destina-se àqueles que a merecem, é essa a verdade em que finjo acreditar.
Os meus pés tocam agora solo alegre, vejo luz ao fundo do túnel. O caminho, atribulado e infame passou. Atingi porto seguro. A claridade fosca que meus olhos negros vêem nada dizem sobre o futuro, nem porventura sei o quão bom é o que vejo. Uma coisa é certa, tudo, absolutamente tudo, é melhor que a negra escuridão da alma.
Dou um passo em frente e evaporo, deixo de existir mas ainda consigo pensar, cogitar algo. Fui traído pela minha convicção de que qualquer claridade era melhor que negrume algum. Estava enganado e apercebo-me disso, estou consciente mas já não existo. Esvoacei. Não acredito na alma, contudo ela já não existe em mim.
Reapareço. Mudado, o meu corpo transformou-se, já não sou mais quem era. E mais uma vez sou invadido pela minha convicção de que afinal a claridade é boa, transvigorou-me profundaente, olhem para mim. Sou um homem confiante, sem medo ágil. Volto ao estado aonde estava, o de não estar. Mas estou, não estando, e isso é melhor que não estar, estando.
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