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Literatura, tu que existes em plena conformidade com o ser civilizado,
que tens tu para me dizer? Por ventura, muita coisa, ironicamente,
bastante. Mas que mais podes tu oferecer ao homem, senão papel e tinta, é
uma pergunta á qual merece uma resposta.
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Que queres mero humano? Não me incomodes que estou enriquecendo a vida
de muitos de vós... Olha, vês, respondi à tua pergunta, assim como que
não quer a coisa, ou como que a coisa não quer. Tenho de usar recursos
estilísticos, a reputação está em risco...
- Ahhhh, então argumentas tu, que existes para colorir o nosso coração!
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Quem disse isso? Não deturpes palavras minhas, mortal... Lês com o
coração é? Ou usas o orgão que te faz ser quem és para processares o que
te dou? O que te estou dizendo é o seguinte: Fui posto na terra por vós
e agora o meu trabalho, o meu foco e objetivo último é fazer com que a
vossa vida não seja vivida em vão. Sim, vós ireis morrer mas com vocês
irais levar para a terra tudo aquilo que eu vos dei. Só os mais
afortunados são escolhidos para absorver o meu produto, a minha matéria
prima. Nem todos me seguem e é pena.
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Tens razão, é o cérebro que se enriquece, o coração esse tem outras
maneiras de se preencher. Mas diz-me lá... porque demoraste tanto tempo a
aparecer?
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Ora isso não sou eu que te tenho de responder, estou cá há uns bons
milénios, fui criado por seres magníficos mas o passado não sei.
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Bem, então se és a Literatura, porque não podes tu aceder por exemplo,
aos livros de história, à pré-história digo, e encontrar essas
informações?
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E porque não o fazes tu? Cabe-te a ti a minha utilização. Eu não me
sirvo de nada, sirvo todos mas em mim não toco. Sou um bem gratuito, ou
melhor era, até decidirem fazer de mim um negócio, mas tudo bem, já
recuperei... Agora ouve-me. Espalha a palavra por todos. Eu não chego ao
homem, os homens chegam a mim por via racional e deliberadamente, ainda
que de vontade livre.
- Quem és tu Literatura...
- Sou quem vocês não conseguem ser. Conseguirão?
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