quarta-feira, 20 de junho de 2012

Incongruente consciência

Dou por mim e já tenho o meu modesto carro encostado à berma da estrada. O vidro abre-se lentamente e a brisa marítima recheia-me as narinas. Não surte qualquer efeito benéfico no meu corpo, esse mantêm-se no mesmo estado de podridão em que me sinto.

A porta abre-se, custa-me a abri-la, a dor física é realmente intensa, tomo consciência disso. Se ao menos tivesse tido cuidado na noite passada, fiz o que não devia, foi por caminhos menos abertos na mente, e magoei-me. Resultado disso: não sei mais quem sou. É pena que a minha identidade, uma de muitas no mundo, se tenha perdido desta maneira.

Ouço risos infinitos de crianças a correr e brincar na praia, é lá onde me encontro agora, já saí do carro. Sei que sou mais um, mais uma criança, porque no fundo somos tudo uns infantis corpos no planeta. Ninguém matura realmente, ninguém conhece na integridade o mundo e aprendi isso da pior maneira.

E é então que uma das três crianças que brincava na fronteira entre o ínfimo areal e a pedra da calçada pára. É um rapazinho e olha intensamente para mim, um olhar latente, invadido de inocência. Só pena sinto, não pena do mocinho, mas de mim. Já fui assim, não sou mais, mas crescer como já disse, não cresci. Ninguém cresce.

A criança já desviou a retina para quem realmente merece e eu já estou sentado na pedra mármore que separa o mar da terra. Nada mais há a fazer senão visualizar o agora por-do-sol. O tom alaranjado da estrela mãe invade-me mas nada me faz. Sou um peso morto, sem alma alguma. Haverá saída para isto?  A única retórica digna de responder não é esta. É pena que a minha vida tenha acabado ontem, de tal forma drástica que mil palavras não completarão o fugaz vazio.

Desapareceu por inteiro o astro rei e as crianças, os adultos, os idosos, esvoaçaram, seguiram viagem, partiram para outra.Fico eu aqui, só mas acompanhado comigo mesmo, com a minha consciência. Talvez seja isso! A consciência, é o facto de eu estar aqui. Todos temos uma, e eu uso-a tão eficientemente que nada me abalará.

Eis então que chego à ideia base da vida humana: a consciência permite-nos de muitas formas ignorar a dor psicológica. Usemo-la.

Já estou no carro, ligo a ignição e volto ao local onde estive ontem. Enfrento a consequência do meu ato, uso a consciência e sigo viagem, para o indefinido.

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