Dou
por mim e já tenho o meu modesto carro encostado à berma da estrada. O
vidro abre-se lentamente e a brisa marítima recheia-me as narinas. Não
surte qualquer efeito benéfico no meu corpo, esse mantêm-se no mesmo
estado de podridão em que me sinto.
A
porta abre-se, custa-me a abri-la, a dor física é realmente intensa,
tomo consciência disso. Se ao menos tivesse tido cuidado na noite
passada, fiz o que não devia, foi por caminhos menos abertos na mente, e
magoei-me. Resultado disso: não sei mais quem sou. É pena que a minha
identidade, uma de muitas no mundo, se tenha perdido desta maneira.
Ouço
risos infinitos de crianças a correr e brincar na praia, é lá onde me
encontro agora, já saí do carro. Sei que sou mais um, mais uma criança,
porque no fundo somos tudo uns infantis corpos no planeta. Ninguém
matura realmente, ninguém conhece na integridade o mundo e aprendi isso
da pior maneira.
E
é então que uma das três crianças que brincava na fronteira entre o
ínfimo areal e a pedra da calçada pára. É um rapazinho e olha
intensamente para mim, um olhar latente, invadido de inocência. Só pena
sinto, não pena do mocinho, mas de mim. Já fui assim, não sou mais, mas
crescer como já disse, não cresci. Ninguém cresce.
A
criança já desviou a retina para quem realmente merece e eu já estou
sentado na pedra mármore que separa o mar da terra. Nada mais há a fazer
senão visualizar o agora por-do-sol. O tom alaranjado da estrela mãe
invade-me mas nada me faz. Sou um peso morto, sem alma alguma. Haverá
saída para isto? A única retórica digna de responder não é esta. É pena
que a minha vida tenha acabado ontem, de tal forma drástica que mil
palavras não completarão o fugaz vazio.
Desapareceu
por inteiro o astro rei e as crianças, os adultos, os idosos,
esvoaçaram, seguiram viagem, partiram para outra.Fico eu aqui, só mas
acompanhado comigo mesmo, com a minha consciência. Talvez seja isso! A
consciência, é o facto de eu estar aqui. Todos temos uma, e eu uso-a tão
eficientemente que nada me abalará.
Eis então que chego à ideia base da vida humana: a consciência
permite-nos de muitas formas ignorar a dor psicológica. Usemo-la.
Já
estou no carro, ligo a ignição e volto ao local onde estive ontem.
Enfrento a consequência do meu ato, uso a consciência e sigo viagem,
para o indefinido.
Foste tu que escreveste isto? Está bastante bom. Convida à reflexão.
ResponderEliminarsim fui, embora nunca o possa provar xD
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